Literatura

A cachorra

Meu primeiro contato com a colombiana Pilar Quintana

Desde muito cedo, a vida de Damaris é marcada por tragédias e, apesar da companhia de Rogelio, carrega uma solidão que talvez tivesse sido aplacada pelo filho que nunca conseguiu ter. Cuidar da casa de veraneio há muito abandonada pela família Reyes ocupa seus dias, alivia sua consciência pelo que sente ter sido omissão sua no passado, mas nada disso lhe traz conforto.

Quando, num rompante, decide adotar a cachorra da ninhada de uma vizinha, Damaris tem a chance de desviar um pouco o foco das tentativas frustradas de engravidar. A fêmea que agora circula pela casa modesta faz aflorar instintos protetores e violentos, emoções díspares e profundas que supostamente só poderiam ser despertadas pela maternidade. A força e a intensidade dessa relação alteram tão drasticamente as dinâmicas de sua existência que Damaris já não sabe se a simples presença da cachorra fez sua vida ganhar ou perder, de uma vez por todas, o rumo.

Breve e magnético, A cachorra se passa em um cenário de dualidades entre beleza e violência. Ambientado em uma bolha de tempo desacelerada, na qual os acontecimentos se desenrolam com a típica lentidão sazonal de uma cidade de veraneio, é um romance contundente sobre vidas marginalizadas em um contexto bastante familiar aos leitores latino-americanos.


Pilar Quintana é uma escritora premiada, seu romance A cachorra foi sua primeira obra publicada no Brasil, depois dele foi lançado também Os abismos (que pretendo ler assim que possível)ambos pela editora Intrínseca.


“Damaris estava com um pouco de medo da reação de Rogelio ao ver a cadela. Ele não gostava de cachorros e, se os criava, era apenas para que latissem e cuidassem da propriedade.”


O tema central da obra é a maternidade, mas trata também de outros temas importantes. Damaris é uma mulher de 40 anos que vive em um povoado litorâneo, é pobre, negra e gorda, pertence a uma parcela marginalizada da sociedade. Seu maior desejo sempre foi se tornar mãe, mas encontramos com ela num momento da vida em que ela já desistiu de conseguir e é aí que a cachorra entra.


Nesse dia Luzmila estava de bom humor e só quisera lhe fazer um elogio, mas em Damaris doeu até a medula perceber que ela, e certamente o mundo inteiro, davam seu caso como perdido, e estava mesmo perdido, ela sabia disso, mas era difícil aceitar.


Ultimamente tenho gostado muito de livros que abordam a maternidade, apesar de ter uma mulher desejando ardentemente ser mãe e não conseguindo, algo que não é exatamente novo na literatura, a escrita de Quintana dá conta de fazer a história interessante. Gosto da forma como começamos com a reação de “amw que fofa” e chegamos ao ponto de pensar “caramba que capetinha” pras peripécias da doguinha.

A Damaris é uma mulher muito comum, mas não sem graça. É uma personagem de camadas e com a qual temos a possibilidade de nos identificar em algum momento da trama.


“A tristeza cobriu Damaris e tudo — levantar-se da cama, preparar a comida, mastigar os alimentos — era um tremendo esforço para ela. Sentia que a vida era como a angra e que ela precisava atravessá-la caminhando com os pés enterrados no barro e a água até a cintura, sozinha, completamente só, em um corpo que não lhe dava filhos e só servia para quebrar coisas.”


Foi uma leitura prazerosa e de muitas reflexões.


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