
Língua Nativa | O poder da linguagem
Sinopse:
“Língua nativa” é um romance de ficção científica ambientado em 2205, onde os direitos das mulheres foram revogados e elas são consideradas úteis apenas para servir aos homens. A economia mundial depende de mulheres linguistas que atuam como tradutoras em negociações interplanetárias. Um grupo de mulheres desenvolve clandestinamente uma linguagem própria para resistir à opressão masculina.
No livro, linguistas desempenham um papel crucial em negociações com espécies alienígenas, destacando a importância da comunicação interespecífica. As crianças dessa classe social são ensinadas a falar múltiplos idiomas desde o nascimento, preparando-as para um futuro multilíngue.
Temas e Relevância
A obra de Suzette Haden Elgin é considerada um clássico da ficção científica e da literatura feminista, na qual a importância da linguagem na formação de identidades e como ferramenta de resistência é explorada pela autora.
As questões de representatividade e como a ausência dela pode tornar certas identidades invisíveis ou impossíveis.
Como pontuado por Susan M. Squier e Julie Vedder no posfácio da edição, a autora defende que nossa percepção do mundo depende de nossas estruturas linguísticas tanto nas palavras escolhidas quanto nas metáforas mais amplas que as modificam e que suposições sobre papeis de gênero estão codificadas em toda nossa linguagem.
Em resumo, a perspectiva linguística de Elgin possui fortes implicações feministas: as línguas que utilizamos para descrever e interagir com o mundo influenciam nossa compreensão, comportamento e interação com os outros. Alterar nossa linguagem transforma nosso mundo.
“as personagens de Língua nativa ocupam um futuro imaginário que dialoga diretamente com nosso preocupante presente: no mundo delas, homens cristãos ditam o destino do corpo de mulheres, ecoando de forma sinistra a cruzada evangélica contra os direitos de liberdade reprodutiva travada enquanto escrevo esta frase.” (Leni Zumas)
Minhas percepções
Uma questão muito interessante tratada no livro é a construção da união entre as mulheres e a importância que elas dão umas às outras em seus variados estágios de vida e condições físicas. Nas propriedades das famílias linguistas existe um prédio chamado de “casa estéril”, onde as mulheres vão morar quando não tem mais condições físicas de gerar filhos. Lá elas ajudam umas às outras, cuidando das mais velhas, praticando linguagens com as mais novas e passando o tempo juntas.
A casa é um local de acolhimento e de comunhão entre as mulheres, mas para os homens, mandá-las pra lá é como se livrar de um peso, uma vez que não podendo gerar filhos, elas se tornam inúteis aos olhos deles, apesar de continuarem trabalhando nas traduções e negociações até idades mais avançadas.
“Rachel estava ficando cada vez mais difícil à medida que se aproximava da meia-idade; não fosse sua extraordinária habilidade de gerenciar os assuntos pessoais de Thomas, ele não teria tolerado o comportamento dela. Uma histerectomia rápida, e lá iria ela para a Casa Estéril. Era tentador.”
E no meio de tudo isso ainda tem a história da “hater de linguistas”, sério, ela é muito foda. Não posso falar muito do que ela faz, pra não estragar a experiência, mas posso pontuar que ela foi criada numa espécie de escola que “ensina mulheres a serem boas esposas” e, após passar por um casamento no qual é usada como um objeto, ela se torna enfermeira para colocar o plano dela em ação.
Em contrapartida, há também a contradição do tratamento que as enfermeiras dispensam às pacientes mulheres, pois a classe dos linguistas é desprezada pelos cidadãos comuns, o chamado “povo leigo”, que os veem como uma classe privilegiada e repugnante. Mas é interessante ver como a enfermeira hater de linguistas muda sua percepção ao conviver com as mulheres da casa estéril da família Chornyak, ela começa a perceber que o problema não é toda a classe dos linguistas mas sim os homens que mantém todas as mulheres em situação de subserviência.
“Ainda assim, doía nela saber que, ao comportamento desagradável, somava-se ainda uma dose adicional de crueldade só porque era uma linguista. Doía não só fisicamente, mas também pela forma desnecessariamente grosseira como cuidavam dela. Doía apenas porque eram mulheres. Mulheres tratando outras mulheres mal… Aquilo era horrível.”
A revolução
Quando Nazareth vai para a casa estéril, ela ajuda a colocar em prática o plano revolucionário das mulheres: iniciar o ensino da láadan, a língua que elas vinham criando em segredo havia anos. A láadan promete mudar o mundo introduzindo modos de percepção e expressão igualitários e não violentos.
Neste primeiro livro, Língua nativa, a língua revolucionária está ainda em construção, escondida por mulheres linguistas em meio a projetos de tricô e livros de receitas.
Sim, essa maravilha é uma trilogia, mas, apenas esse primeiro volume foi publicado no Brasil, espero que a editora traga os demais volumes em breve.
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