Cinema

Cristóbal Balenciaga: direcionando traumas e emoções para a arte

Depois de “House Of Gucci”, de 2021, os olhos parecem ter se aberto para adaptações sobre a origem das casas de alta-costura da moda. Essa parece ser a nova sensação entre os produtores audiovisuais, especialmente as plataformas de streaming. Os estilistas ganham os holofotes: “The New Look”, sobre Christian Dior, estreou na Apple TV+; “Halston”, da Netflix; e, o que assistimos recentemente, “Cristóbal Balenciaga” do Star+/Disney+.

Durante o horário de almoço, da última semana, foi possível absorver os episódios da série sobre o estilista homônimo. Desvendamos a mente complexa, teimosa e inigualável de um dos maiores estilistas da história. Diferente de um retrato biográfico, a série nos oferece uma jornada mais profunda pelas emoções conturbadas, traumas e obsessões que assombraram e moldaram a vida e toda a obra artística de Balenciaga. Deixando de lado onde ele nasceu, onde viveu e outras informações que podemos encontrar na Wikipédia. Elas estão ali, online, e a série realmente foca no quão grandioso foi Cristóbal Balenciaga e no quanto sua visão modificou a moda durante seus anos.

Entrevista? Tô fora!

Cristóbal Balenciaga foi um estilista espanhol muito recluso. Não dava entrevistas, não aparecia aos finais de seus desfiles e era um defensor de que marketing e moda não se misturam. Seus traumas e tiques emocionais ficam evidentes na atuação de Alberto San Juan, que brilha na pele do gênio da moda. Com uma atuação sensível e contida, capturando a essência de um homem atormentado por seus demônios internos, buscando incansavelmente a perfeição em seu trabalho. Sim, esse era o maior defeito de Balenciaga: o perfeccionismo.

A série não se contenta em romantizar o estilista. Ele tem seus defeitos, expostos, como qualquer pessoa emocionalmente abalada, por uma vida turbulenta em um mundo em guerra, poderia ser. Ao contrário do que se espera (uma produção que mostre todos os feitos do estilista, o colocando em um pedestal), a série explora com honestidade brutal todos os lados sombrios da personalidade de Balenciaga. Temos os temas mais frequentes na sua vida trabalhados de uma forma majestosa: sua obsessão pelo controle de tudo ao redor; a dificuldade em lidar com a fama; a falta de comunicação com as pessoas; e a relutância em se conectar. Testemunhamos seus relacionamentos turbulentos, suas crises de criatividade e seus momentos de profunda solidão.

Cistróbal Balenciaga | Sabuga | Na foto, uma mulher desfila na passarela com uma das peças do estilista.

Todos passam por uma crise criativa

Como um profissional da criatividade e artista, “Cristóbal Balenciaga” é uma série que nos representa em diferentes aspectos. É uma celebração da arte e me fez abraçar todos os aspectos que, hoje, envolvem o meu trabalho. Grandes gênios também passam por bloqueios criativos e desejos de permanecerem sozinhos, em um mundo abarrotado de pessoas. Diferente de Balenciaga, eu entendo esses sentimentos e emoções e me permito sentir e vivê-las.

Mas, apesar de presenciarmos esses altos e baixos, a série nos dá espaço para apreciar a beleza atemporal das criações de Cristóbal, sua maestria no uso dos tecidos, na capacidade de revolucionar a silhueta feminina e como contornar situações para deixar que sua mente trabalhe de forma livre. Porque isso é o que todo artista merece: criar sem filtros sociais.

De quem será o próximo estilista?

“Cristóbal Balenciaga” tem uma direção que nos guia pelos anos vividos pelo estilista com uma fotografia elegante, cinza e escura; e trilha sonora, por muitas vezes, melancólica. Isso contribui para criar uma atmosfera imersiva e envolvente. Mas, também, não é uma série para todo mundo.

Pode parecer lenta, difícil e te fazer querer olhar a notificação do seu Duolingo pedindo socorro. Em alguns momentos é preciso estar concentrado, pois exige atenção e reflexão. Pode também parecer complexo e desafiadora, mas vale a pena para conhecer um dos maiores gênios da moda de todos os tempos. Agora sabemos porque Myrtle Snow, de “American Horror Story”, em seus últimos momentos antes de ser queimada na fogueira gritou: BALENCIAGA!

Cristóbal Balenciaga.: Mitos de la moda (livro)

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