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Soulslike não é um gênero: um desabafo de um gamer mediano

Você liga seu console, ou PC, ou air fryer, ou seja lá o que você usa para jogar depois de um dia estressante de trabalho. O jogo começa – caramba, que gráficos lindos. Você passa pelo tutorial ainda tomado pelo torpor de um novo game para explorar e com uma enorme injeção de dopamina para se recompensar por ter vencido o seu leão diário . O primeiro inimigo aparece, e você, cheio de ingenuidade e boas intenções, entra em combate. 

E morre. Muito. Para o primeiro inimigo. 

Tenho certeza que você sabe de que categoria estou falando. Aquele panteão de jogos que (há controvérsias) surgiu em 2009 com Demon’s Souls e ganhou uma legião de fãs até furar a bolha do gamer hardcore e ganhar visibilidade no mainstream. Pule para 10 anos no futuro e esse emulador de frustração tem nome: Soulslike. “Jogos que parecem Souls”, em tradução fornecida pela minha bunda. 

O problema é que, quando definimos algo como “um jogo que parece outro”, estamos criando um comparativo intrínseco entre duas experiências que não necessariamente compartilham do mesmo pretexto. 

Essa comparação reduz jogos a uma fórmula específica e faz com que caiamos na mesma armadilha dos subgêneros do heavy metal. Veja bem: não estou propondo uma revisionismo de taxonomia para sua banda de post-goregrind symphonic blackened rococó metal; estou apenas apontando que é mais fácil simplesmente chamar de um RPG de ação. O resto da experiência varia de jogador para jogador. Não é necessário transformar esses jogos num culto

Ao fazermos isso, criamos a espiral que começa em utilizar termos como “soulslike” e termina com você esbravejando no twitter, com frases prontas como “se você fez isso, não jogou direito” e, antes que perceba, você se tornou um chato de galocha. 

Parabéns, chato de galocha. Você é chato demais. Toma aqui um troféu. 

Sabuga.com.br | Soulslike não é um gênero | Paródia da famosa tela "você morreu", com uma imagem do personagem do jogador "LetMeSoloHer", sobrescrito "você é chato"
Calma, eu também amo o LetMeSoloHer.

Se o nome não é Soulslike, qual a proposta, então?

Sei lá. Sou só um jogador médio que acha que os jogos não precisam ser tão complicados. A gente tem mesmo que separar as coisas nesse nível de nuance? Eu já tenho que aprender o tempo certo do parry e o padrão de ataques dos inimigos, agora preciso também de um dicionário?

Dark Souls é influente, e todos os jogos que vieram depois de Dark Souls aprenderam um pouco com Dark Souls. É ótimo. Miyazaki é um gênio. Mas a gente não pode só chamar de RPG de ação?

Demon’s Souls surgiu se propondo a exigir mais da sua imersão além de apenas subir de nível. Você precisa ser melhor como jogador para ter chance contra os horrores daquele mundo. Isso significa que, em vez de ser um herói, o escolhido e o salvador, você é um m*rda. Absolutamente tudo naquele ambiente vai te matar, por isso, você precisa ter cuidado.

Estamos acostumados com jogos onde você chega sendo naturalmente mais forte que os inimigos e eles estão ali apenas para te dar experiência e fazer você subir de nível. Aqui a coisa é diferente. Todo mundo te quer morto de verdade. Você dificilmente vai se sentir como sendo o protagonista.

Além disso, como você precisa selecionar atributos específicos do seu personagem para subir um ponto por vez a cada nível. Você não fica muito mais forte entre um nível e outro. Ah! E se você morrer no processo, toda sua experiência prévia (runas, almas, etc) vão pro saco.

Sua barra de stamina é consumida toda vez que você realiza uma ação (incluindo desviar e defender), então é bem provável que você fique esgotado demais para lutar. A experiência média do jogador é fugir muito, morrer muito e se esforçar demais.

Tudo isso faz parte do enredo, e mesmo com tecnologias modernas esses elementos fazem sentido. O mundo não está esperando um herói e você está f***do.

Mas quando a dopamina vem, ela vem forte. A sensação de recompensa ao superar um obstáculo muito difícil deixa você nas nuvens. Xingar o chefe depois de matá-lo é normal.


É justo?

Daí para frente começamos a chamar todos os jogos com uma premissa semelhante de soulslike. Parecido com “metroidvania”, “rouguelike” e outros semelhantes. E a comunidade cria essas pequenas barreiras enquanto cria uma sensação de pertencimento a quem conhece as gírias.

Claro que eu não me proponho a mudar a taxonomia dos jogos que amamos (tem até página na Wikipedia), mas é interessante observar o quanto a comunidade gamer está mudando (nem sempre para melhor).

Tento fugir dessas armadilhas (rolando) enquanto me pergunto se isso não vai chegar ao ponto de afastar pessoas não-gamers muito legais das nossas conversas. Tá tudo complicado demais.

E a DLC nova de Elden Ring é boa pra c***lho.

3 thoughts on “Soulslike não é um gênero: um desabafo de um gamer mediano

  • Ulfgrim

    Bom texto. Concordo em número, gênero e grau. Eu imagino que estejam tentando usar o termo “Soulslike” da mesma maneira que “Roguelike” usa elementos de Rogue, mas esquecem que Rogue é um jogo cru e fundamental, especialmente no contexto em que foi lançado, e que os jogos que se inspiram em Rogue têm um vasto universo de inovação para explorar.

    O Gamer Chato é tão capaz de compreender um contexto quanto um peixe é capaz de subir uma árvore. No mais, tentamos. Sigo invocando minha Mimic Tear porque o unico mano que eu confio além de mim é eu mesmo.

    Resposta

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